Mão segurando smartphone representando inovação pedagógica

Inovação tecnológica x inovação pedagógica

Sabemos enumerar quais são os tantos problemas da escola. Difícil é imaginar uma escola que não seja “essa escola”. Um método de ensino que não coloque pessoas em caixas. Um processo de ensino-aprendizagem que respeite as particularidades de cada um (seus contextos, culturas, interesses). Uma educação que ajude a transformar. Que seja crítica, problematizadora.

Como estamos vivendo um período histórico que tensiona as estruturas escolares para a necessidade de inovação pedagógica, observamos muitos interesses (privados, corporativos) procurando ocupar esse espaço. O campo da educação é um território de disputa. Por que? Porque um projeto curricular, educacional é um desenho do futuro. Um desenho que pretende rabiscar a sociedade que não temos hoje e que desejamos para amanhã. Por isso construir um currículo é essencialmente uma operação de poder. Uma reforma curricular é uma operação de poder. Quando pensamos nos propósitos envolvidos nas reformas curriculares, o que é importante perguntarmos é: que projeto de futuro está sendo desenhado? Quem é o responsável por projetá-lo? Com quais propósitos? Vivemos uma democracia, o que quer dizer que pensar um projeto para o futuro deve(ria) representar o que nós queremos enquanto sociedade. Mas, o que nós queremos?

 

Voltamos para o início do texto. Queremos, suponho, uma educação que nos mostre que não é preciso estar em caixas. Que respeite nossos saberes e interesses. Que não nos coloque na média, porque não somos todos iguais, e que não nos repreenda por não estar na média. Que nos ajude a desnaturalizar o que é natural, a questionar nossas crenças cegas, a problematizar o que nos é dado como verdade única. Que nos mostre como quebrar paradigmas. Que incentive a criatividade, a curiosidade, a postura investigativa, a vontade de aprender. Que conecte saberes para nos ajudar a compreender o mundo a nossa volta. Que seja um ponto de encontro de pessoas com perguntas, ideias, projetos, vontade de colaborar e crescer. Que nos mostre que está em nós o poder de transformação. Que nos ensine que ‘trabalho’ é diferente de ‘mercado de trabalho’; o trabalho é uma dimensão humana, é onde nos desenvolvemos, contribuímos, produzimos, colaboramos, unimos forças, nos realizamos.

 

A escola, assim como outras estruturas institucionais na atualidade, estão sendo tensionadas pelo contexto histórico que vivemos. Especialmente as tecnologias digitais de informação e comunicação estão alterando profundamente a forma como nos organizamos socialmente. Isso não é uma novidade, é uma constatação ao observar as condições materiais e objetivas do nosso tempo. Estruturas que seguem uma formatação da época da revolução industrial, a famosa linha de montagem fordista com seus espaços-tempos engessados e padronizados, estão sendo “demolidas” por essa nova ordem. O que serão dessas instituições no futuro? E a escola, como imaginá-la daqui a 10, 15, 20 anos?

 

A ação educacional é intencional. Pode ser, para alguns, que não seja conscientemente intencional – o que não quer dizer que não existam intenções. Intenções que visam formar forças de trabalho para o mercado diminuem o papel da escola, da educação formal. É especialmente míope quando pensamos que esse mesmo mercado também está em cheque: formar competências para qual mercado? Em um futuro breve, a exemplo do que já vem acontecendo, muitas profissões deixarão de existir e muitas novas surgirão. Mas essa é uma outra discussão, quero destacar mesmo é o papel da escola, que vai muito além do mercado de trabalho. Estamos formando as pessoas que queremos ver no mundo, encontrar, dialogar ou formando funcionários?  

 

Formar funcionários era um dos objetivos das teorias tradicionais de currículo, lá no período da Revolução Industrial. A obra “chave” que representa as teorias tradicionais de currículo chama-se “The curriculum”, Franklin Bobbitt, o texto original é de domínio público – foi escrito em 1918. Se estiver com o inglês afiado, pode acessar aqui. A tradução é portuguesa e não se acha no Brasil (eu não achei, pelo menos). Se quiser espiar o sumário terá pistas da abordagem e seu conteúdo. É possível que você leia algum trecho e ache bastante atual – ou pior, não ache nada “estranho”. As teorias tradicionais de currículo estão assustadoramente presentes hoje nas instituições de ensino do mundo todo.

 

Talvez seja oportuno esclarecer que currículo, como colocado aqui, não se resume à famosa “grade curricular”. Currículo é um campo da educação e tem a ver com toda a concepção da estrutura escolar: o que ensinar? Por que? Para quem? Como? Para saber mais sobre o que é currículo e quais teorias foram desenvolvidas ao longo do tempo sugiro o livro – bem didático – do Tomaz Tadeu da Silva, “Documentos de identidade” (referência completa ao final do post). Esse é um campo interessantíssimo da educação, na minha visão. Se você não é da área da educação e quiser se aventurar, prepare-se para sair da Matrix (rs).

 

Hoje, com as tecnologias digitais da informação e comunicação, muitas ações de inovação pedagógica são, na verdade, inovações tecnológicas. E nem tão tecnológicas assim, se formos considerar o complexo contexto brasileiro. Escolas sem laboratórios, materiais didáticos, computadores, energia elétrica (sim, sem energia elétrica, no meio rural). Nesse ponto concordo bastante com o educador António Nóvoa, quando diz que nem o básico estamos fazendo bem feito (entrevista muito interessante, pode ser lida aqui). Não adianta inovar na tecnologia se as próprias concepções de educação que estão guiando as intencionalidades do currículo são, elas mesmas, obsoletas. As tecnologias digitais não são, por si só, salvadoras. Elas terão o uso e o significado que dermos a elas (ou que derem a elas no nosso lugar). É importante não confundir inovação tecnológica com inovação pedagógica. Essa diferenciação é que nos permite sermos mais assertivos quando falamos dos problemas da escola e da forma como podemos solucioná-los.

 

A tecnologias são meios, mas não somente isso. As tecnologias digitais mudam a forma de nos inserirmos e nos postarmos no mundo – transformam até a nossa percepção da realidade. Precisamos de concepções pedagógicas que nos ajudem a estar e participar de maneira autônoma e crítica neste mundo (e no mundo do futuro). Não se trata de deixar a aula mais “interessante” e de “prender a atenção” com enfeites tecnológicos, mas sim de alcançar os propósitos que já comentamos anteriormente: uma educação que contemple a realidade do sujeito, que não somente deposite informação, que estimule seu potencial criativo, que leve a compreender seu lugar no mundo e a questioná-lo, que leve à construção de sua capacidade crítica.

 

Como visualizar uma educação assim? Será utopia? Quero compartilhar duas experiências diferentes e que ajudam nessa reflexão.

 

  1. A primeira experiência é da Escola da Ponte, bem conhecida, idealizada pelo educador português José Pacheco. Essa entrevista é de 2004 e tem muito material, livros e palestras mais recentes, mas nessa reportagem dá para ter uma ideia de como funciona a escola, que existe há mais de trinta anos e está bem consolidada.
  2. Essa outra experiência, realizada pelo indiano Sugata Mitra, é bem disruptiva e mostra como a aprendizagem é natural. Criamos processos escolares que matam a vontade conhecer e aprender. O TedTalk pode ser acessado aqui, vale muito a pena assistir, porque nos provoca a pensar na escola do futuro.

 

Não existe uma resposta pronta, eu acredito que a educação do futuro será construída por nossas mãos. De todos. Mas, temos um propósito, um projeto para a sociedade do futuro. Se não nos colocarmos e lutarmos enquanto sociedade pela educação que queremos, pelo projeto do futuro que almejamos, ele será desenhado por nós (no nosso lugar). E aí voltamos às questões: que projeto é esse? Quem o está desenhando? Com quais propósitos?

 

Referências

 

BELLONI, Maria Luiza; BÉVORT, Evelyne. Mídia-educação: conceitos, história e perspectivas. Educ. Soc., v. 30, n. 109, Campinas-SP, set./dez., 2009. Disponível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010173302009000400008&nr=iso.

 

PETTER, Rosemery C., SAMBRANO, Taciana M. As inovações tecnológicas e a educação: o que considerar? IN: MACIEL, Cristiano, ALONSO, Katia M., PANIAGO, Maria C. (org). Educação a distância: Interação entre sujeitos, plataforma e recursos. Cuiabá: EdUFMT, 2016. (p. 313-339)

 

SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade, uma introdução às teorias de currículo. 2007.

 

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