Estudando com computador e caderno, inovação escolar e tecnologia

A (não) inovação escolar através das novas tecnologias

Eu sempre fui uma má aluna. Fazia parte daquele grupo que sobrevivia da recuperação bimestral. A culpa era minha companheira diária. Se me dissessem naquela época que eu me encaminharia para trabalhar com educação eu jamais acreditaria que teria “competência” para isso. 

Quando eu reprovei o último ano da educação básica (acho que até hoje somente poucas pessoas próximas sabiam disso) eu tinha certeza que a “culpa” era toda minha – apesar de me lembrar de trechos de uma conversa com o diretor da escola onde eu falava coisas como “nenhum sistema é perfeito, mas dá pra melhorar”.

Passei um bom tempo fazendo cursinho e prestando vestibular. Não queria decepcionar meus pais, precisava “ser alguém na vida”. Como se fosse ninguém. Sentia vergonha da minha história. Um dia – acho que vendo uma entrevista na televisão – conheci um livro que se chama “Fomos maus alunos“, que é um diálogo entre Rubem Alves e Gilberto Dimenstein sobre a experiência escolar deles. Imagina a minha surpresa em pensar que referências como eles poderiam, um dia, terem sido maus alunos! Foi a primeira quebra de paradigma na educação para mim: ser um mau aluno na escola não significa estar fadado ao fracasso pelo resto da vida. Parece forte, mas é assim que nós, maus alunos, nos sentimos.

Foi por causa da leitura desse livro que decidi prestar vestibular naquele ano também para Pedagogia. Passei e entendi logo no primeiro semestre que meu campo era a educação. Em uma disciplina ou outra eu patinava, mas na maior parte delas eu estava sendo – pela primeira vez na vida – uma “boa aluna”. Não tinha nada a ver com querer ter um bom desempenho – nem me via nessa turma -, mas com o fato de que eu estava vendo sentido e significado no que estava estudando e isso refletia nas avaliações.

Ter uma história de insucesso no nosso modelo escolar não é uma exclusividade minha. O sentimento de culpa que carreguei não foi uma experiência única, mas compartilhada por muitos “maus alunos” mundo afora. Por que? Em minha (modesta e aprendente) visão, porque currículos que padronizam, miram a média, defendem o mínimo línguas-e-matemática, são voltados a notas, recriminam o erro, tratam as pessoas como peças a serem encaixadas, deixam de fora uma imensidão de coisas que constituem a plenitude humana. Também deixam de fora a riqueza de sermos diferentes, termos diferentes visões e maneiras de fazer as coisas. Eu acredito, cada dia com mais força, que o currículo para (ontem) hoje e o futuro deve(ria) estar cada vez mais atrelado às histórias de vida dos educandos, suas narrativas pessoais. No respeito à sua singularidade e liberdade de escolher o seu caminho. Se enxergarmos a educação dessa forma, uma dia será desnecessário falar em educação inclusiva… Todo processo educativo deve ser inclusivo, simplesmente porque somos todos diferentes.

Se quiser estudar algo sobre currículo narrativo tem um autor chamado Ivor Goodson que trata do tema, como neste artigo aqui. Ainda estou estudando sobre esse assunto, mas quando li pela primeira vez esse artigo pensei comigo “faz muito sentido!”.

Tá e… como entra a inovação escolar e a tecnologia nessa história?

Não são (somente) as leituras e estudos, mas a minha experiência de vida que me faz acreditar que não existe inovação escolar apenas inserindo novas tecnologias sem refletir sobre as concepções educacionais que estruturam as práticas. Para mim, discutir a inserção das tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC) está profundamente vinculada à discussão sobre currículo. Entendendo currículo, como falei neste post aqui, em um sentido mais amplo de concepção da estrutura escolar.

É preciso, primeiro, discutir os “porquês” do currículo para pensar na apropriação das TDIC no contexto escolar, porque esta refletirá aquela. Qual é a concepção educacional colocada em prática pelos currículos hoje? Como as TDIC são apropriadas neste abordagem curricular? É possível ser diferente? Como as TDIC deveriam, então, ser apropriadas?

No áudio a seguir falo um pouco mais sobre essa reflexão. Para esclarecimento, quando falo em tecnologia, estou me referindo especialmente às TDIC.

 

(Tempo total: 6min)

O intuito deste podcast é levantar uma reflexão para pensarmos juntos o caminho a ser trilhado nesta nova história. No próximo post coloco um pouco sobre a minha visão pessoal do que acredito ser o “para onde caminhamos”.

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